Evolução da Ansiedade

Introdução


Temos reconhecido que a ansiedade é um tipo de emoção que tem sido moldada pela seleção natural e a modulação desta é a receita para o sucesso.
As respostas corporais, comportamentais e cognitivas constituem emoções pré-programadas que proporcionam desempenho nas habilidades para enfrentar as ameaças e aproveitar as oportunidades. Cada emoção pode ser entendida como um programa concebido para cada desempenho em situações específicas como: o amor é imprescindível para a conquista, a fuga é necessária numa situação frente ao predador ou a esquiva quando diante da desaprovação do grupo. No entanto, as diferentes emoções devem estar orquestradas ou coordenadas pelas diferentes esferas funcionais, sensitivas, cognitivas.

A utilidade da ansiedade tem sido reconhecida há algum tempo. Estudos iniciados por Darwin e seus contemporâneos 1872 (as manifestações do medo e das emoções), Bowlby 1973 (ansiedade de separação), Marks 1987 (Fears, Phobias, and Rituals), Ainsworth 1978 (Study of the Strange Situation), klein 1981 (Anxiety Reconceptualized), Cannon 1929 e Frankenhaeuser (reações adaptativas ao estresse) .


E também que o medo está ligado mais a alguns eliciadores que a outros_). Marks 1969 (Fear and Phobias), Seligman 1970 (On the Generality of the Laws of Learning), Paley 1970 (Natural Teology), Ruse 1988 (Philosophy of Biology), Mineka 1980 (Fear of Snakes in Wild and Laboratory- reared Rhesus Monkeys), Mayr 1974 (Teleologycal and Teleonomic a New Analysis).

 

 

As Manifestações Ansiosas


Alguns pesquisadores admitem vários subtipos de ansiedade, enquanto outros acreditam em vários tipos distintos com etiologia e fenomenologia particulares. No entanto, sob a perspectiva evolucionista, podemos afirmar que as manifestações dependem das situações em que ocorreram ou ocorrem as necessidades adaptativas. Como exemplo, podemos entender nossas defesas imunológicas: temos as respostas imunológicas generalizadas e as respostas específicas. Antígenos desencadeiam defesas contra corpos estranhos ou agentes estranhos com o ataque de linfócitos e as manifestações decorrentes como febre, dores, etc. Mas também podemos lançar mão de defesas específicas para debelar uma infecção bacteriana.

 

 

Os Subtipos de Ansiedade


Entendendo desta forma, outras ameaças externas desencadeiam outras respostas específicas ou generalizadas, que induzem à vigilância, reações fisiológicas e planos de defesa (Edmunds 1974; Jansen 1981). Locais altos provocam congelamento,paralisação, ameaças sociais provocam submissão, predadores provocam fuga. E as reações físicas e autonômicas (taquicardia, por ex.) podem ocorrer em mais de uma situação, tornando similares as reações sob ameaças diferenciadas. (pareamento).

 

Quatro formas de reações podem ocorrer diante da ameaça (Marks 1987):


1.
 Fuga ou esquiva - quando há certa distância da ameaça, com manifestação de repugnância, vômitos, diarréia, tosse ou congelamento, postando-se com uma certa distância do objeto ou situação causadora do medo.


2. Defesa agressiva – raiva ou ira, arranhar ou postura de ataque, morder, expelir substâncias; cuspir ou secretar ou soltar espinhos.


3. Congelamento – com a intenção de interromper o ataque do predador, avaliar a situação ou esperar ajuda.


4. Submissão – geralmente quando a ameaça provém do mesmo grupo, com inibição dos impulsos. Múltiplas estratégias ou reações podem ser utilizadas juntas numa mesma situação.

 

 

 

Há Utilidade nas Manifestações Ansiosas?


- ALTURA induz mais ao congelamento que à fuga, protegendo contra a queda.

 

- SANGUE E FERIMENTOS podem desencadear reação vaso vagal para estancar hemorragias ou ataque do predador.

 

LOCAIS PÚBLICOS representam medo extraterritorial. Falta de segurança que o território ou grupo pode oferecer (AGORAFOBIA).

 

TRAUMAS desencadeiam esquiva da possibilidade de novo trauma ou risco à integridade.


- AMEAÇAS SOCIAIS, risco de não aceitação ou aprovação de atitudes em relação ao grupo. Manifestação moderada de timidez indica submissão e facilita a aceitação.

 

CIÚMES desencadeado pelo medo de ser abandonado pelo companheiro também desencadeia comportamentos agressivos, o que no ciúme
patológico inclui ruminações, checagem de possível infidelidade.

 

COMPORTAMENTOS OBSESSIVOS COMPULSIVOS, grooming (o ato de alisar, agradar e retirar parasitas ou lamber), facilita a integração ao grupo e reconcilia o perdedor de uma luta ao dominante (reconciliação). Associa-se aos atos repetitivos de limpeza e lavagem.

 

As várias manifestações da ansiedade correspondem às reações em face às várias ameaças.

 

 

 

Defense Regulation (Modulação da Defesa)

 

As defesas promovem a sobrevivência quando ocorrem na medida certa para cada tipo de ameaça. Quando é excessiva ou inapropriada, sofre o corpo ou aumenta-se o risco de morte.


Ex: pessoas que não apresentam sensibilidade à dor podem morrer jovens, os que têm excessiva sensibilidade, são excluídos funcionais (Stevens 1981). A falta da tosse reflexa leva à pneumonia ou doenças pulmonares, o excesso de tosse desencadeia hipertensão. A ausência de diarréia aumenta a absorção de microorganismos ou toxinas,(DuPont and Hornick 1973). Vômitos ou diarréias excessivas levam à deshidratação. Portanto, os sistemas que modulam nossas defesas têm a finalidade de detectar e responder adequadamente a cada ameaça apropriadamente.

 

 

A ANSIEDADE É ÚTIL PARA A SOBREVIVÊNCIA E FUNCIONAMENTO SE CUIDADOSAMENTE MODULADA. QUANDO A PRESSÃO DE SOBREVIVÊNCIA É INTENSA, O CUSTO DA HIPERVIGILÂNCIA É MENOR QUE O RISCO. NÃO PODEMOS ERRAR DIANTE DE UM
PREDADOR!


DIFERENTES AMBIENTES SELECIONAM DIFERENTES REAÇÕES. EM REGIÕES ISOLADAS MUITAS ESPÉCIES PERDEM A CAPACIDADE DE FUGA, LUTA OU DE ESCONDER-SE. QUANDO AS POPULAÇÕES EUROPÉIAS COLONIZADORAS CHEGARAM AO “NOVO MUNDO” AS POPULAÇÕES NATIVAS FORAM AMPLAMENTE DIZIMADAS.

 

 

Eliciadores do Medo (CUES)


O SISTEMA NERVOSO tem sido moldado em resposta a estímulos menores, potenciais para situações de risco. Indivíduos que reconhecem e respondem a indícios de ameaças vivem mais e deixam mais descendentes, que aprendem com as experiências acumuladas de seus progenitores, “Prepotency” (Marks 1969, Ohman and dimberg 1984). “Preparedness” (Seligman, 1970).


Ex: estímulo visual diante das serpentes, o medo de locais muito altos sem anteparos.

 

 

Prédisposições Cognitivas


Nossos mecanismos cognitivos têm sido construídos através da seleção natural. Geralmente esta pré disposição cognitiva é assertiva e nos ajuda muito na vida cotidiana (“intuição”). Porém está mais preparada para eventos mais marcantes ou raros do que para os mais comuns de nossas vidas atuais, como por ex.: mais para um acidente de avião do que para os acidentes diários de veículos, mais para uma doença rara do que para uma doença do coração (Tversky and Kahneman 1974). Nós subvalorizamos dados para calcular os riscos (kahneman et. al. 1982).


DARWIN elaborou algorritmos sobre a esquiva do predador. O erro em avaliações falsas positivas na detecção de possíveis predadores.

 

 

Implicações na Pesquisa e Tratamentos


As pesquisas científicas sobre ansiedade tentam freqüentemente identificar síndromes específicas causadas por defeitos neurofisiológicos. Porém devemos observar três aspectos importantes:


1 – Diferentes manifestações ansiosas refletem limiares de reações decorrentes da herança poligênica e não defeitos específicos (diferentes sussetibilidades).


2 – Há dificuldades em separar os tipos de ansiedade de forma muito rigorosa (os perigos são específicos em cada situação, mas as respostas se sobrepõem).


3 – Há diferentes sistemas regulatórios centrais que devem ainda ser eluscidados para se conhecer melhor os mecanismos específicos que
produzem a ansiedade.

 

 

A Importância Heurística da Perpectiva Evolucionista


O viés evolucionista pode nos ajudar a entender o quebra cabeça que consiste a ansiedade. Os medos universais (transculturais) geralmente estão ligados ao nosso passado e são ou foram adaptativos (Marks, Fear, Phobias, and Rituals, 1987). Porém há manifestações de comportamentos adaptativos aparentemente contraditórias que devemos eluscidar.

 

Conclusão:

 

 A ANSIEDADE COMO OUTRAS DEFESAS ( ADAPTATIVAS ) TEM SIDO MODIFICADA PELA SELEÇÃO NATURAL. OS SISTEMAS DE MODULAÇÃO DA ANSIEDADE ASSIM COMO DE OUTROS MECANISMOS DE DEFESA, PODEM APRESENTAR EXCESSIVAS OU DEFICIENTES RESPOSTAS NEUROFISIOLÓGICAS, LEVANDO-NOS ÀS MANIFESTAÇÕES DESAPTATIVAS, INTERPRETADAS COMO SINTOMAS OU TRANSTORNOS.

 

Para Onde Vamos?

 

OS ESTUDOS ATUAIS TENDEM PARA A GENÉTICA, EPIGENÉTICA, ANTROPOLOGIA, ETOLOGIA E ESTUDOS DE IMAGEM DECODIFICADOS PELA INFORMÁTICA , TODOS INTEGRADOS. A PSIQUIATRIA EVOLUCIONISTA TENTA RELACIONAR O NORMAL E O PATOLÓGICO BASEANDO-SE EM EVIDÊNCIAS ATUAIS, NA DOENÇA OU SAÚDE MENTAL, COMPARADAS À CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO DO HOMO SAPIENS AO LONGO DE SUA EVOLUÇÃO E DE SEUS ANTEPASSADOS MAIS LONGÍNQUOS.

 

Novas Perspectivas

 

O ESPECTRO EVOLUCIONISTA DA SAÚDE OU DOENÇA MENTAL AMPLIA OS HORIZONTES DA ETIOLOGIA E DO CONHECIMENTO DAS DOENÇAS. MODIFICA O MITO DO DEFEITO E AGREGA A CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO SELETIVA AO ANACRONISMO EVOLUTIVO.

 

Acesse também: Http://evmedreview.com 

 

Luiz Vicente Figueira de Mello



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